Andar sozinho por uma rua. Escolher sozinho para onde virar. Poder abrandar. Poder correr. Sorrir sem comentar. Não esperar. Esperar por hábito de ter mais alguém ali. Pensar em voz alta para partilhar uma ideia com uma companhia imaginária. Ter uma só opinião. Refutar essa opinião para poder ter algo para discutir. Imprimir várias velocidades e opções de percurso para ser mais divertido. Descobrir coisas por acaso. Ver os rastos dos aviões no céu e não poder pedir desejos por não ter quem me descruze os dedos. Querer dividir um bolo. Querer conversar no café. Sentir mais ar que o normal. Pegar no telemóvel para me sentir perto. Olhar. Ver. Fotografar como forma de colecionar memórias. Entrar no silêncio frio de uma catedral. Sentar e ficar só. Inspiro e sigo.
segunda-feira, 9 de janeiro de 2012
Inspiro e sigo
domingo, 8 de janeiro de 2012
Music for flying
("Sonata nº14 for Piano", Beethoven)
Andar de avião suscita-me sempre o medo terrivel de cair. É inevitável. Normalmente quase que começo a chorar, na hipótese de não voltar a ver ninguém que não esteja no avião comigo. Gosto no entanto daquele tempo em que não podemos fazer muito mais do que nos dedicarmos a nós próprios ou à pessoa do lado. ("Today your love, tomorrow the world", Ramones)
"Senhores passageiros, pedimos o favor de apertar o cinto de segurança, pois atravessamos uma zona de turbulência" ("Concentration", Jurassic 5)
Escrevo no ar e suo das mãos. Tenho no colo todo o meu mundo possível de distrações: o jornal de fim de semana, o caderno para escrever, um lápis, uma caneta, o computador e o ipod, com as músicas no shuffle, que sempre me faz sorrir com algumas surpresas inesperadas e mudanças bruscas de estilos. ("Walkin in the rain", Barry White). Distrai-me.
É sempre impressionante como a cada espaço de 5 minujtos, em média, muda o que sinto e o que penso consoante a música que toca. Acho seriamente uma função imprescindível do meu ipod. ("In the midnight hour", BB King).
"Ne pas marcher a l'exterieur de l'encadrement". Acabo sempre por imaginar, certamente fruto de anos a ver filmes de ação, alguém agarrado só com uma mão à asa do avião, de roupas rasgadas e músculos fortes de certeza de ir cair e apanhar um avião a voar mais baixo, onde pode cair. ("Engine Runnin" Talib Kweli & Mad Lib)
Os cheiros em espaços fechados também não me agradam especialmente. Como ideia poética fazem sentido e são apelativos de momentos e memórias, o cheiros de um mercado, de pastelarias na rua, roupa estendida. ("Bugle Break", Duke Ellington) Num autocarro, comboio ou avião, os cheiros podem não ser tão convidativos ou apelativos, sendo que não existe a possibilidade de ignorar, mudar de passeio, sair. Os perfumes misturam-se, os suores com matizes étnicos sobressaem, e o olfacto torna-se um sentido poderoso, absorvente e demasiado intenso. ("Satisfaction Guaranteed", Teddy Pendergrass). No 3º andar do meu prédio moram indianos e muitas vezes cheira a caril em minha casa. Acho delicioso.
O sinal do cinto de segurança desligou, parece que já não atravessamos a tal zona de turbulência. Ainda assim só vejo nuvens lá em baixo, ainda sinto o avião tremer e não deixo de ter um medo genuíno de andar de avião. ("Girl from the North Country", Bob Dylan)
Definitivamente sou corpo-terra, corpo-chão. Gosto de voar dentro da minha cabeça, voar sentada, voar fora do mundo onde os aviões não vão. Gosto de voar mais, para além da distância possivel de ser medida, para sítios onde fisicamente não conseguimos chegar. ("Slow Down", Smoove Turrel)
Se olhar à volta tenho já com que me entreter. Um senhor com cerca de 40 anos, barba por fazer, já a ficar careca, óculos de armação discreta, vai de certeza acordar cheio de dores no pescoço. Adormeceu de phones, com a cabeça apoiada no próprio ombro, com o canto esquerdo da boca a descair também, enquanto cabeceia em ciclos cada vez mais espaçados. ("Pleasure from the bass", 2 Many Djs) Há quem trabalhe ao computador, tornando o exíguo espaço da classe económica, num micro escritório improvisado. ("Gasoline", Audioslave) Um outro senhor levantou-se, duas linhas de bancos à minha frente, totalmente alheio ao estado festivaleiro da sua cabeleira branca vista de trás. A plateia viu e agradeceu. Uma senhora de colar de pérolas e mamas a descansar na barriga, lê o romance "Eat, Pray, Love" de Elizabeth Gilbert. Pelas mãos e características anteriormente descritas deverá ter uns 50 anos. Lembro-me de ter visto a adaptação do livro ao cinema, por coincidência no avião, na viagem entre Londres e Tóquio. ("Plenty", Guru e Erykah Badu)
Como será ser hospedeira/o de bordo?... Trabalhar como trapezista, no ar, mas com os pés no chão e de cabeça para cima.
Caminhar em linha reta, de trás para a frente, com momentos de desvio durante um percurso. Inclinações laterais, para entregar coisas ou ouvir os passageiros. Descidas e subidas para tirar coisas dos carrinhos. ("Perseguição", Amália Rodrigues)
"Ladies and gentleman we're starting our descending to Paris." ("Danças Portuguesas", Carlos Paredes)
Andar de avião suscita-me sempre o medo terrivel de cair. É inevitável. Normalmente quase que começo a chorar, na hipótese de não voltar a ver ninguém que não esteja no avião comigo. Gosto no entanto daquele tempo em que não podemos fazer muito mais do que nos dedicarmos a nós próprios ou à pessoa do lado. ("Today your love, tomorrow the world", Ramones)
"Senhores passageiros, pedimos o favor de apertar o cinto de segurança, pois atravessamos uma zona de turbulência" ("Concentration", Jurassic 5)
Escrevo no ar e suo das mãos. Tenho no colo todo o meu mundo possível de distrações: o jornal de fim de semana, o caderno para escrever, um lápis, uma caneta, o computador e o ipod, com as músicas no shuffle, que sempre me faz sorrir com algumas surpresas inesperadas e mudanças bruscas de estilos. ("Walkin in the rain", Barry White). Distrai-me.
É sempre impressionante como a cada espaço de 5 minujtos, em média, muda o que sinto e o que penso consoante a música que toca. Acho seriamente uma função imprescindível do meu ipod. ("In the midnight hour", BB King).
"Ne pas marcher a l'exterieur de l'encadrement". Acabo sempre por imaginar, certamente fruto de anos a ver filmes de ação, alguém agarrado só com uma mão à asa do avião, de roupas rasgadas e músculos fortes de certeza de ir cair e apanhar um avião a voar mais baixo, onde pode cair. ("Engine Runnin" Talib Kweli & Mad Lib)
Os cheiros em espaços fechados também não me agradam especialmente. Como ideia poética fazem sentido e são apelativos de momentos e memórias, o cheiros de um mercado, de pastelarias na rua, roupa estendida. ("Bugle Break", Duke Ellington) Num autocarro, comboio ou avião, os cheiros podem não ser tão convidativos ou apelativos, sendo que não existe a possibilidade de ignorar, mudar de passeio, sair. Os perfumes misturam-se, os suores com matizes étnicos sobressaem, e o olfacto torna-se um sentido poderoso, absorvente e demasiado intenso. ("Satisfaction Guaranteed", Teddy Pendergrass). No 3º andar do meu prédio moram indianos e muitas vezes cheira a caril em minha casa. Acho delicioso.
O sinal do cinto de segurança desligou, parece que já não atravessamos a tal zona de turbulência. Ainda assim só vejo nuvens lá em baixo, ainda sinto o avião tremer e não deixo de ter um medo genuíno de andar de avião. ("Girl from the North Country", Bob Dylan)
Definitivamente sou corpo-terra, corpo-chão. Gosto de voar dentro da minha cabeça, voar sentada, voar fora do mundo onde os aviões não vão. Gosto de voar mais, para além da distância possivel de ser medida, para sítios onde fisicamente não conseguimos chegar. ("Slow Down", Smoove Turrel)
Se olhar à volta tenho já com que me entreter. Um senhor com cerca de 40 anos, barba por fazer, já a ficar careca, óculos de armação discreta, vai de certeza acordar cheio de dores no pescoço. Adormeceu de phones, com a cabeça apoiada no próprio ombro, com o canto esquerdo da boca a descair também, enquanto cabeceia em ciclos cada vez mais espaçados. ("Pleasure from the bass", 2 Many Djs) Há quem trabalhe ao computador, tornando o exíguo espaço da classe económica, num micro escritório improvisado. ("Gasoline", Audioslave) Um outro senhor levantou-se, duas linhas de bancos à minha frente, totalmente alheio ao estado festivaleiro da sua cabeleira branca vista de trás. A plateia viu e agradeceu. Uma senhora de colar de pérolas e mamas a descansar na barriga, lê o romance "Eat, Pray, Love" de Elizabeth Gilbert. Pelas mãos e características anteriormente descritas deverá ter uns 50 anos. Lembro-me de ter visto a adaptação do livro ao cinema, por coincidência no avião, na viagem entre Londres e Tóquio. ("Plenty", Guru e Erykah Badu)
Como será ser hospedeira/o de bordo?... Trabalhar como trapezista, no ar, mas com os pés no chão e de cabeça para cima.
Caminhar em linha reta, de trás para a frente, com momentos de desvio durante um percurso. Inclinações laterais, para entregar coisas ou ouvir os passageiros. Descidas e subidas para tirar coisas dos carrinhos. ("Perseguição", Amália Rodrigues)
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
solta
vazio. ausência. espaço. sensação. ar. transparente. película. fino. atravessar. percurso. viagem. mudança. alternativa. escolha. decisão. ordem. caos. explosão. cometas. céu. universo. silêncio. palavra. diálogo. dois. número. contagem. mecânico. máquina. engrenagem. fábrica. repetir. automático. rotina. hábito. padre. igreja. devoção. deus. fé. religião. diferença. raça. áfrica. cor. quente. sexo. prazer. corpo. dança. movimento. arte. culura. país. tradição. língua. comunicação. desordem. anarquia. liberdade. revolução. política. corrupção. poder. ditadura. prisão. solidão. queda. suícidio. morte. vazio.
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
Tudo indica que pode ser um ano estranho, não necessariamente bom ou mau, apenas potencialmente estranho. Acordei deliciada com tanta coisa que sinto, entre a plenitude de estar onde quero, o medo de perder o que tenho e o pânico de não atingir o que sonho. Dia 1, fui a um funeral. Inevitavelmente chorei. Não pela perda pessoal, mas por sentir naquele momento que existe um adeus certo, de nós para alguém ou de alguém para nós. "Espera por mim, estou quase a ir ter contigo...". Dói. Dói tanto e faz com que uma dor particular se torne universal. É mais fácil pensar que existe um Paraíso, O Paraíso. Que é um sítio fisicamente real e não uma construção espiritual para uma necessidade colectiva. E assim foi passando o dia 1. Soturno com cheiro e humidade de cor cinza-claro-escuro-de-quem-quase-que-chove.
E no final do dia, sentada de frente para um palco cenograficamente elaborado, rodeada por famílias expectantes e ansiosas, entro na ilusão de pessoas que voam, cospem fogo, se contorcem em posições inimagináveis, assisto a uma hipotética representação de paraíso mágico, aparentemente real, secretamente encenado com cores, luzes, fumo e figurinos perfeitos. O público incrédulo e rendido comenta: "imaginem só aquelas miúdas chinesas (qualquer traço oriental pode ser chinês...), que se dobram todas e são gémeas! É quase impossivel encontrar uma assim quanto mais duas e gémeas!" Ouço e penso... não são chinesas, não são sequer parecidas quanto mais gémeas (tive oportunidade de as conhecer). Mas a verdade é que a realidade por vezes não interessa, a vontade de querermos acreditar na ilusão do que constroem para nós é tão maior. Paraíso, talvez. Feliz ano.
E no final do dia, sentada de frente para um palco cenograficamente elaborado, rodeada por famílias expectantes e ansiosas, entro na ilusão de pessoas que voam, cospem fogo, se contorcem em posições inimagináveis, assisto a uma hipotética representação de paraíso mágico, aparentemente real, secretamente encenado com cores, luzes, fumo e figurinos perfeitos. O público incrédulo e rendido comenta: "imaginem só aquelas miúdas chinesas (qualquer traço oriental pode ser chinês...), que se dobram todas e são gémeas! É quase impossivel encontrar uma assim quanto mais duas e gémeas!" Ouço e penso... não são chinesas, não são sequer parecidas quanto mais gémeas (tive oportunidade de as conhecer). Mas a verdade é que a realidade por vezes não interessa, a vontade de querermos acreditar na ilusão do que constroem para nós é tão maior. Paraíso, talvez. Feliz ano.
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