quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Sou.

Esta vai sem filtro.
São 18h e sinto que acordei há duas horas, embora tenha acordado bem mais cedo. Não sei se sintoo tempo a passar entre os dedos ou se é suposto ser este o fluir natural do tempo. Angustia-me mais do que alguma vez pensei esta sensação de já não ser quem era ou não estar a ser aquilo que projectei há 10 anos atrás. Também não sei quem hei-de culpar, se os outros, se a mim própria ou simplesmente ao facto de ter sido sempre uma miúda com mais sonhos que realidade, com mais vontade do que é possivel o meu mundo acompanhar.
O tempo continua a existir da mesma forma, na mesma proporção, no entanto para mim parece que existe qualquer diferente, que me faz sentir que os dias têm um número diferente de horas ou que eu tenho uma velocidade difernte das horas e de mim própria há um tempo atrás. 
E este limbo??? Entre o paralisado e o empurrar-me a mim própria para não cristalizar onde estou, que é em lugar nenhum. Como é possivel que quem sempre correu em frente, tantas vezes sem direcção, sem ver sequer o que estava à frente, se sinta só assim... parado. E não obstante, o mais agonizante, aquilo que me deveria fazer explodir, mas me está a deixar tal e qual como um peão que pára na estrada qd não sabe se há-de ir para a frente ou voltar para trás, é sentir que há outros, mil outros que estão a fazer o que eu sempre fiz, a correr para a frente sem medo de cair. Porque simplesmente não interessa onde chegamos, o que nos faz sentir vivos são aqueles momentos em que sem sabermos exactamente porquê, nos sentimos inexplicavelmente vivos, acessos, em fogo, pulsantes, prontos a conquistar o mundo.
E paralisada procuro essa sensação e só a encontro atrás e procura projectá-la para a frente, empurrá-la para outro sítio, além de mim, para além de mim. E durante todo este processo mantenho-me aqui, entre o que fui, o que não sei ser e aquele ponto no futuro que só me faz olhar para trás e projectar o que era suposto ser agora, segundo uma utopia fantástica de que sou o que sinto ser e me paralisa terrivelmente quando não me encontro.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Ele enche o espaço vazio



"Estás a ver, está ali um tipo e está lá toda a gente? Ele tem a obrigação de soltar cá para fora o que toda a gente tem dentro da cabeça. Começa o primeiro chorus, depois arruma as ideias, as pessoas, sim, sim, mal o topam, e depois ele encontra o seu destino e tem de soprar à sua medida. De repente, algures no meio do chorus, ele apanha-O; toda a gente levanto os olhos e compreende; eles escutam; ele agarra-O. O tempo pára. Ele enche o espaço vazio com a substância das nossas vidas, confissões da tensão do baixo ventre, recordações de ideias, arranjos de velhos sopros. Ele tem de soprar através das pontes e voltar a fazê-lo com um sentimento infinito que se entranha dentro da alma durante essa melodia momentânea de tal modo que toda a gente sabe que o que conta não é a melodia mas o facto de ele O ter." Jack Kerouac, Pela Estrada Fora

domingo, 23 de setembro de 2012

Quase quente


O dia acordou num silêncio de barulho crescente. Está quase quente já. Terminei a noite com um sonho mau, sempre próximo aos meus medos que não se auto consomem. Cheirei-te na vontade de te engolir e nos meus braços de polvo abracei-te para o meu corpo se sentir cheio. A lua brilha forte num céu já claro e as luzes extinguem-se. O desejo que pedi é teu também. Bom dia deusa.

Tomorrow's Luck


Consigo parar quando o meu mundo interior pára. Quando deixo de gritar. Quando deixo de sofregamente querer e só ouço. Quando o vento faz sentido existir e os cheiros de chuva e raios secos se confundem no teu perfume.
Consigo parar quando sei que hoje e amanhã e talvez depois estão aqui, controlados de surpresas expectantes, a arder de Outono quente e perspectivas de dias quentes e noites frescas de casaco fino.
Consigo parar quando me sento às quatro da tarde, como se fossem nove da manhã, na proximidade do acordar, e onze da noite na euforia de uma noite inesquecível.
Consigo parar porque o chão mexe, o mundo me desafia e a temperatura muda ao sabor das nuvens que podem decidir chorar a qualquer momento.
Consigo parar porque é hoje, porque te acompanho e caminho sentada de caneta na mão. Para longe daqui. Para dentro. Para amanhã.
Está vento e chegou o Outono.
Entra.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Luanda

Luanda.
Há coisas que me deixam com dificuldade em respirar. Me deixam em suspenso, sem conseguir saber como reagir. A sensação é próxima a um quase atropelamento. Aquele segundo em que paralisamos antes de conseguir decidir se corremos para o outro lado ou se recuamos. Se ficamos estáticos, o mundo passa por cima de nós.
Nãoter expectativas é irreal. Conseguir absorver alguma coisa de imediato também.
O Pedrinho vive em Gamek à direita. O motorista preto de sorriso fácil.
Início de Inverno e estão 30º. O nome do hotel é perfeito, Calor Tropical. Quando o ouvi no aeroporto pareceu-me o nome ideal para um motel em Lisboa. Daqueles bem rascas. O almoço para duas pessoas custou 86$.
Fomos ter com o Zé Luis, 50 e poucos anos, senhor que me parece ter 5 vidas paralelas, brasileiro, com uma energia contagiante e um óbvio prazer em viver. Bem.
Bay Side, no centro da cidade. 8,50$.
Reunião com algum ministro relacionado com o petróleo. A gasolina custa cerca de 60 cêntimos por litro. E aumentou, porque era 40.
Ficamos com o Perinho para ir até À Ilha de Luanda. Molhei os pés no mar.
Vi no trânsito um senhor a limpar o tablier do carro com um pincel enquanto conduzia.
2 cafés no meio da rua; 500 Kuanzas.
Voltamos para o centro e dois putos, lavadores de carros, de bermudas e chinelos, batem-se até estarem a sangrar. Estamos parados nas traseiras de um prédio, o Pedrinho motorista à espera do chefe Zé Luis. No chão lama e os putos caem, rebolam, esmurram-se, pontapeiam-se na cabeça e a audiência aumenta. "Beberam e fumaram Biamba ou Malange, ficam malucos!" Eu só ouço os berros "Vou-te matar!"
Fim do dia de sol, 17h30. Dentro de um Dodge de vidros fumados e ar condicionado no máximo, já não há motorista. Somos 4 agora. O chefe Zé Luis tem um amigo, consultor também julgo.
Sair do centro através de um musseke até à Avenida da Samba para ir para Talatona.
Quatro bananas no meio do trânsito, directamente de uma cesta enorme na cabeça de uma mulher que transporta um bebé às costas e mais um saco na mão... 300 kuanzas. Duas depois chegamos ao destino.
Prédios, espaços e uma cidade diferente aparece. Bebo uma Cuca no Zodabar e temos uma acesa conversa sobre Luanda. Voltei a não pagar nada.
Jantar. Pizza noutro Bay Side com outros amigos do "chefe". Outra Cuca.
Dia longo e fico em silêncio por nada conseguir dizer.
Luanda.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

love.scar.fear.run mother fucker.run.


Corto a respiração e páro. Andei demais, andei sem sair do lugar.
Páro e nada fica estático. Levanto-me, luto. Caio. Levanto-me, sigo e tento lembrar como apenas se é. Quando se existe assim, só a ser, sem mais.
Corro e deixei-me para trás. Procuro nas horas, dias, meses e sei que não sei onde sou. Foi. Sentir o tempo a ser puxado e a vontade de poder abrandar sem medo de o mundo parar. Só a ser.
E quando sinto o tempo na pele, sei que as memórias são parte de cada cicatriz, que quero fechar, ler apenas como marcas de quem sentiu tanto. De quem cai. De quem dá o mundo sem medo de perder a terra onde arranha.
Saltei. Um pé, dois pés, cabeça. Póros que gritam por não quererem mais suar. E quando tudo grita, eu corri, explodi, gritei, chorei em cada lágrima a sensação de que deixei de saber ser.
Páro e tento respirar. Saber ser fora do tempo, porque apenas sou. Sem mais. E cada textura, cor, sal, cheiro, fluido, alma tem de existir cá dentro na corrente que me faz seguir. E depois? Ainda agora começou.

Send in the clowns



Isn't it rich?
Are we a pair?
Me here at last on the ground,
You in mid-air.
Send in the clowns.

Isn't it bliss?
Don't you approve?
One who keeps tearing around,
One who can't move.
Where are the clowns?
Send in the clowns.

Just when I'd stopped opening doors,
Finally knowing the one that I wanted was yours,
Making my entrance again with my usual flair,
Sure of my lines,
No one is there.

Don't you love farce?
My fault I fear.
I thought that you'd want what I want.
Sorry, my dear.
But where are the clowns?
Quick, send in the clowns.
Don't bother, they're here.

Isn't it rich?
Isn't it queer,
Losing my timing this late
In my career?
And where are the clowns?
There ought to be clowns.
Well, maybe next year

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Inspiro e sigo

Andar sozinho por uma rua. Escolher sozinho para onde virar. Poder abrandar. Poder correr. Sorrir sem comentar. Não esperar. Esperar por hábito de ter mais alguém ali. Pensar em voz alta para partilhar uma ideia com uma companhia imaginária. Ter uma só opinião. Refutar essa opinião para poder ter algo para discutir. Imprimir várias velocidades e opções de percurso para ser mais divertido. Descobrir coisas por acaso. Ver os rastos dos aviões no céu e não poder pedir desejos por não ter quem me descruze os dedos. Querer dividir um bolo. Querer conversar no café. Sentir mais ar que o normal. Pegar no telemóvel para me sentir perto. Olhar. Ver. Fotografar como forma de colecionar memórias. Entrar no silêncio frio de uma catedral. Sentar e ficar só. Inspiro e sigo.



domingo, 8 de janeiro de 2012

Music for flying

("Sonata nº14 for Piano", Beethoven)


Andar de avião suscita-me  sempre o medo terrivel de cair. É inevitável. Normalmente quase que começo a chorar, na hipótese de não voltar a ver ninguém que não esteja no avião comigo. Gosto no entanto daquele tempo em que não podemos fazer muito mais do que nos dedicarmos a nós próprios ou à pessoa do lado. ("Today your love, tomorrow the world", Ramones)
"Senhores passageiros, pedimos o favor de apertar o cinto de segurança, pois atravessamos uma zona de turbulência" ("Concentration", Jurassic 5)
Escrevo no ar e suo das mãos. Tenho no colo todo o meu mundo possível de distrações: o jornal de fim de semana, o caderno para escrever, um lápis, uma caneta, o computador e o ipod, com as músicas no shuffle, que sempre me faz sorrir com algumas surpresas inesperadas e mudanças bruscas de estilos. ("Walkin in the rain", Barry White). Distrai-me.
É sempre impressionante como a cada espaço de 5 minujtos, em média, muda o que sinto e o que penso consoante a música que toca. Acho seriamente uma função imprescindível do meu ipod. ("In the midnight hour", BB King).
"Ne pas marcher a l'exterieur de l'encadrement". Acabo sempre por imaginar, certamente fruto de anos a ver filmes de ação, alguém agarrado só com uma mão à asa do avião, de roupas rasgadas e músculos fortes de certeza de ir cair e apanhar um avião a voar mais baixo, onde pode cair. ("Engine Runnin" Talib Kweli & Mad Lib)
Os cheiros em espaços fechados também não me agradam especialmente. Como ideia poética fazem sentido e são apelativos de momentos e memórias, o cheiros de um mercado, de pastelarias na rua, roupa estendida. ("Bugle Break", Duke Ellington) Num autocarro, comboio ou avião, os cheiros podem não ser tão convidativos ou apelativos, sendo que não existe a possibilidade de ignorar, mudar de passeio, sair. Os perfumes misturam-se, os suores com matizes étnicos sobressaem, e o olfacto torna-se um sentido poderoso, absorvente e demasiado intenso. ("Satisfaction Guaranteed", Teddy Pendergrass). No 3º andar do meu prédio moram indianos e muitas vezes cheira a caril em minha casa. Acho delicioso.
O sinal do cinto de segurança desligou, parece que já não atravessamos a tal zona de turbulência. Ainda assim só vejo nuvens lá em baixo, ainda sinto o avião tremer e não deixo de ter um medo genuíno de andar de avião. ("Girl from the North Country", Bob Dylan)


Definitivamente sou corpo-terra, corpo-chão. Gosto de voar dentro da minha cabeça, voar sentada, voar fora do mundo onde os aviões não vão. Gosto de voar mais, para além da distância possivel de ser medida, para sítios onde fisicamente não conseguimos chegar. ("Slow Down", Smoove Turrel)
Se olhar à volta tenho já com que me entreter. Um senhor com cerca de 40 anos, barba por fazer, já a ficar careca, óculos de armação discreta, vai de certeza acordar cheio de dores no pescoço. Adormeceu de phones, com a cabeça apoiada no próprio ombro, com o canto esquerdo da boca a descair também, enquanto cabeceia em ciclos cada vez mais espaçados. ("Pleasure from the bass", 2 Many Djs) Há quem trabalhe ao computador, tornando o exíguo espaço da classe económica, num micro escritório improvisado. ("Gasoline", Audioslave) Um outro senhor levantou-se, duas linhas de bancos à minha frente, totalmente alheio ao estado festivaleiro da sua cabeleira branca vista de trás. A plateia viu e agradeceu. Uma senhora de colar de pérolas e mamas a descansar na barriga, lê o romance "Eat, Pray, Love" de Elizabeth Gilbert. Pelas mãos e características anteriormente descritas deverá ter uns 50 anos. Lembro-me de ter visto a adaptação do livro ao cinema, por coincidência no avião, na viagem entre Londres e Tóquio. ("Plenty", Guru e Erykah Badu)
Como será ser hospedeira/o de bordo?... Trabalhar como trapezista, no ar, mas com os pés no chão e de cabeça para cima.
Caminhar em linha reta, de trás para a frente, com momentos de desvio durante um percurso. Inclinações laterais, para entregar coisas ou ouvir os passageiros. Descidas e subidas para tirar coisas dos carrinhos. ("Perseguição", Amália Rodrigues)


 "Ladies and gentleman we're starting our descending to Paris." ("Danças Portuguesas", Carlos Paredes)

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

solta


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segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Tudo indica que pode ser um ano estranho, não necessariamente bom ou mau, apenas potencialmente estranho. Acordei deliciada com tanta coisa que sinto, entre a plenitude de estar onde quero, o medo de perder o que tenho e o pânico de não atingir o que sonho. Dia 1, fui a um funeral. Inevitavelmente chorei. Não pela perda pessoal, mas por sentir naquele momento que existe um adeus certo, de nós para alguém ou de alguém para nós. "Espera por mim, estou quase a ir ter contigo...". Dói. Dói tanto e faz com que uma dor particular se torne universal. É mais fácil pensar que existe um Paraíso, O Paraíso. Que é um sítio fisicamente real e não uma construção espiritual para uma necessidade colectiva. E assim foi passando o dia 1. Soturno com cheiro e humidade de cor cinza-claro-escuro-de-quem-quase-que-chove.
E no final do dia, sentada de frente para um palco cenograficamente elaborado, rodeada por famílias expectantes e ansiosas, entro na ilusão de pessoas que voam, cospem fogo, se contorcem em posições inimagináveis, assisto a uma hipotética representação de paraíso mágico, aparentemente real, secretamente encenado com cores, luzes, fumo e figurinos perfeitos. O público incrédulo e rendido comenta: "imaginem só aquelas miúdas chinesas (qualquer traço oriental pode ser chinês...), que se dobram todas e são gémeas! É quase impossivel encontrar uma assim quanto mais duas e gémeas!" Ouço e penso... não são chinesas, não são sequer parecidas quanto mais gémeas (tive oportunidade de as conhecer). Mas a verdade é que a realidade por vezes não interessa, a vontade de querermos acreditar na ilusão do que constroem para nós é tão maior. Paraíso, talvez. Feliz ano.