Luanda.Há coisas que me deixam com dificuldade em respirar. Me deixam em suspenso, sem conseguir saber como reagir. A sensação é próxima a um quase atropelamento. Aquele segundo em que paralisamos antes de conseguir decidir se corremos para o outro lado ou se recuamos. Se ficamos estáticos, o mundo passa por cima de nós.
Nãoter expectativas é irreal. Conseguir absorver alguma coisa de imediato também.
O Pedrinho vive em Gamek à direita. O motorista preto de sorriso fácil.
Início de Inverno e estão 30º. O nome do hotel é perfeito, Calor Tropical. Quando o ouvi no aeroporto pareceu-me o nome ideal para um motel em Lisboa. Daqueles bem rascas. O almoço para duas pessoas custou 86$.
Fomos ter com o Zé Luis, 50 e poucos anos, senhor que me parece ter 5 vidas paralelas, brasileiro, com uma energia contagiante e um óbvio prazer em viver. Bem.
Bay Side, no centro da cidade. 8,50$.
Reunião com algum ministro relacionado com o petróleo. A gasolina custa cerca de 60 cêntimos por litro. E aumentou, porque era 40.
Ficamos com o Perinho para ir até À Ilha de Luanda. Molhei os pés no mar.
Vi no trânsito um senhor a limpar o tablier do carro com um pincel enquanto conduzia.
2 cafés no meio da rua; 500 Kuanzas.
Voltamos para o centro e dois putos, lavadores de carros, de bermudas e chinelos, batem-se até estarem a sangrar. Estamos parados nas traseiras de um prédio, o Pedrinho motorista à espera do chefe Zé Luis. No chão lama e os putos caem, rebolam, esmurram-se, pontapeiam-se na cabeça e a audiência aumenta. "Beberam e fumaram Biamba ou Malange, ficam malucos!" Eu só ouço os berros "Vou-te matar!"
Fim do dia de sol, 17h30. Dentro de um Dodge de vidros fumados e ar condicionado no máximo, já não há motorista. Somos 4 agora. O chefe Zé Luis tem um amigo, consultor também julgo.
Sair do centro através de um musseke até à Avenida da Samba para ir para Talatona.
Quatro bananas no meio do trânsito, directamente de uma cesta enorme na cabeça de uma mulher que transporta um bebé às costas e mais um saco na mão... 300 kuanzas. Duas depois chegamos ao destino.
Prédios, espaços e uma cidade diferente aparece. Bebo uma Cuca no Zodabar e temos uma acesa conversa sobre Luanda. Voltei a não pagar nada.
Jantar. Pizza noutro Bay Side com outros amigos do "chefe". Outra Cuca.
Dia longo e fico em silêncio por nada conseguir dizer.
Luanda.
Adorei o relato. O movimento da historia como se o dia se estivesse a recriar de novo no momento em que li. Compreendo perfeitamente a dinamica, a vida que acontece la fora enquanto estas no carro, e a vida que acontece quando sais do carro e voltas para o carro. E no meio a vida no geral! Deixo-te o link do meu blog, se um dia nao tiveres nada que fazer e queiras dar uma olhada.
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