domingo, 8 de janeiro de 2012

Music for flying

("Sonata nº14 for Piano", Beethoven)


Andar de avião suscita-me  sempre o medo terrivel de cair. É inevitável. Normalmente quase que começo a chorar, na hipótese de não voltar a ver ninguém que não esteja no avião comigo. Gosto no entanto daquele tempo em que não podemos fazer muito mais do que nos dedicarmos a nós próprios ou à pessoa do lado. ("Today your love, tomorrow the world", Ramones)
"Senhores passageiros, pedimos o favor de apertar o cinto de segurança, pois atravessamos uma zona de turbulência" ("Concentration", Jurassic 5)
Escrevo no ar e suo das mãos. Tenho no colo todo o meu mundo possível de distrações: o jornal de fim de semana, o caderno para escrever, um lápis, uma caneta, o computador e o ipod, com as músicas no shuffle, que sempre me faz sorrir com algumas surpresas inesperadas e mudanças bruscas de estilos. ("Walkin in the rain", Barry White). Distrai-me.
É sempre impressionante como a cada espaço de 5 minujtos, em média, muda o que sinto e o que penso consoante a música que toca. Acho seriamente uma função imprescindível do meu ipod. ("In the midnight hour", BB King).
"Ne pas marcher a l'exterieur de l'encadrement". Acabo sempre por imaginar, certamente fruto de anos a ver filmes de ação, alguém agarrado só com uma mão à asa do avião, de roupas rasgadas e músculos fortes de certeza de ir cair e apanhar um avião a voar mais baixo, onde pode cair. ("Engine Runnin" Talib Kweli & Mad Lib)
Os cheiros em espaços fechados também não me agradam especialmente. Como ideia poética fazem sentido e são apelativos de momentos e memórias, o cheiros de um mercado, de pastelarias na rua, roupa estendida. ("Bugle Break", Duke Ellington) Num autocarro, comboio ou avião, os cheiros podem não ser tão convidativos ou apelativos, sendo que não existe a possibilidade de ignorar, mudar de passeio, sair. Os perfumes misturam-se, os suores com matizes étnicos sobressaem, e o olfacto torna-se um sentido poderoso, absorvente e demasiado intenso. ("Satisfaction Guaranteed", Teddy Pendergrass). No 3º andar do meu prédio moram indianos e muitas vezes cheira a caril em minha casa. Acho delicioso.
O sinal do cinto de segurança desligou, parece que já não atravessamos a tal zona de turbulência. Ainda assim só vejo nuvens lá em baixo, ainda sinto o avião tremer e não deixo de ter um medo genuíno de andar de avião. ("Girl from the North Country", Bob Dylan)


Definitivamente sou corpo-terra, corpo-chão. Gosto de voar dentro da minha cabeça, voar sentada, voar fora do mundo onde os aviões não vão. Gosto de voar mais, para além da distância possivel de ser medida, para sítios onde fisicamente não conseguimos chegar. ("Slow Down", Smoove Turrel)
Se olhar à volta tenho já com que me entreter. Um senhor com cerca de 40 anos, barba por fazer, já a ficar careca, óculos de armação discreta, vai de certeza acordar cheio de dores no pescoço. Adormeceu de phones, com a cabeça apoiada no próprio ombro, com o canto esquerdo da boca a descair também, enquanto cabeceia em ciclos cada vez mais espaçados. ("Pleasure from the bass", 2 Many Djs) Há quem trabalhe ao computador, tornando o exíguo espaço da classe económica, num micro escritório improvisado. ("Gasoline", Audioslave) Um outro senhor levantou-se, duas linhas de bancos à minha frente, totalmente alheio ao estado festivaleiro da sua cabeleira branca vista de trás. A plateia viu e agradeceu. Uma senhora de colar de pérolas e mamas a descansar na barriga, lê o romance "Eat, Pray, Love" de Elizabeth Gilbert. Pelas mãos e características anteriormente descritas deverá ter uns 50 anos. Lembro-me de ter visto a adaptação do livro ao cinema, por coincidência no avião, na viagem entre Londres e Tóquio. ("Plenty", Guru e Erykah Badu)
Como será ser hospedeira/o de bordo?... Trabalhar como trapezista, no ar, mas com os pés no chão e de cabeça para cima.
Caminhar em linha reta, de trás para a frente, com momentos de desvio durante um percurso. Inclinações laterais, para entregar coisas ou ouvir os passageiros. Descidas e subidas para tirar coisas dos carrinhos. ("Perseguição", Amália Rodrigues)


 "Ladies and gentleman we're starting our descending to Paris." ("Danças Portuguesas", Carlos Paredes)

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